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Em 2009 fui diagnosticado com uma doença do neurônio motor (DNM) Trata-se de uma doença neuromuscular, progressiva, degenerativa e sem cura. Mesmo assim insisto que vale a pena viver e lutar para que pesquisas, tratamentos paliativos, novos tratamentos cheguem ao Brasil no tempo + breve possível, alem do respeito no cumprimento dos nossos direitos. .

17 de abr de 2011

FDA e a "intolerância" a Dipirona - Parte 1

                                   
“... estudo brasileiro entre 1975 e 1995, Andrade e colaboradores observaram a incidência de reações adversas  (agranulocitose...) causadas por 4 analgésicos: dipirona, paracetamol, AAS e  diclofenaco . O índice de efeitos colaterais importantes foi igual entre a dipirona e o paracetamol...”

Por Antonio Jorge de Melo

 


Introdução
Não é novidade para ninguém que a indústria farmacêutica multinacional fatura muitos milhões de dólares na comercialização de medicamentos em todo o mundo. Também não podemos fechar os olhos para a importância da pesquisa clínica realizada por essas empresas , que ao longo desses anos tem evoluído substancialmente na descoberta de novas drogas para tratamento de diversas doenças, aumentando a expectativa de vida da humanidade e lhe proporcionando uma melhora na qualidade de vida.
A linha que divide a responsabilidade social e o compromisso com a saúde humana dessas empresas e o seu interesse em lucrar é realmente muito tênue, quase invisível. Visão e missão é muito bonito no papel, mas na hora do lucro...a cartilha é outra. Estamos falando de um ambicioso mercado, onde dentro da ética capitalista o que se espera é a maximização do lucro, e não o prejuízo no caixa das empresas. Assim, cada um vai em busca da defesa do seu espaço.
Portanto, em 1977, quando o FDA retirou a dipirona do mercado americano, apesar das alegações evocadas por esse órgão, ficou uma dúvida no ar sobre as verdadeiras motivações que estariam por detrás dessa  “jogada de mestre” do FDA , deixando o mercado de analgésicos-antipiréticos dos EUA  nos trilhos do paracetamol, que por coincidência a patente pertence a uma empresa americana, a Johnsons &Johnsons.
Benseñor, em um editorial do S Paulo Med Journal levantou rumores de que "houve um potencial conflito de interesses na proibição americana da dipirona, considerando que a droga foi desenvolvida na Alemanha, a quem pertencia a patente". Ela conclui seu editorial afirmando que “é hora de tomar decisões baseadas em evidências e não em preconceitos”.
Uma história de sucesso
A dipirona, hoje utilizada em mais de 100 países, foi o primeiro analgésico e antitérmico lançado no Brasil (1922), respondendo por 32% do mercado nacional, com um consumo anual em torno de 190 toneladas.
A marca mais difundida de dipirona no no Brasil é a Novalgina, o que transformou essa marca em top of mine, e hoje ela divide espaço com outras marcas similares e genéricas.
Alem dos EUA, a dipirona não é utilizada na Inglaterra e Suécia, devido a um possível efeito colateral - a agranulocitose - que é uma diminuição da produção das células que formam o sangue na medula óssea. Dessa forma, ao longo de seus mais de 80 anos de existência, a dipirona tem sido alvo de ataques e defesas em relação à sua segurança.             

Evidência científica controversa
Em 1964, foi publicado o trabalho importante para o questionamento da segurança da dipirona, especialmente nos Estados Unidos. O trabalho, de autoria de Huguley utilizou a mesma base de dados do estudo Discombe, acrescentando apenas resultados de mais três investigadores. Os resultados não foram muito diferentes do estudo Discombe, sendo os valores relacionando dipirona com agranulocitose igualmente altos: uma incidência de agranulocitose de 0,79% (1 caso a cada 127 exposições). No entanto, um grande erro do autor nesse estudo foi considerar que a aminopirina e a dipirona eram similares, apesar de serem fármacos quimicamente distintos. Deixa-nos uma dúvida e uma pergunta: Como um país tão desenvolvido cientificamente como os EUA tenham se deixado envolver por tal estudo com tantas falhas estatísticas.
Um fato que comprova o erro dos números propostos por Huguley está relacionado a níveis de agranulocitose extremamente baixos em diversas partes do mundo ainda que o número de pessoas em uso de dipirona seja muito elevado. Se relacionássemos às taxas de agranulocitose induzidas pela dipirona proposta por Huguley o número de casos da doença seria enormemente mais alto.
O Estudo de Boston colocou um ponto final nas especulações sem base científica aceitável, pois se tratou de um estudo com uma metodologia e tamanho consideráveis. Envolveu mais de 40 pesquisadores, e nada menos que 300 hospitais e 22,2 milhões de pessoas, em 7 países: Alemanha, Itália, Hungria, Espanha, Israel, Bulgária, Suécia acompanhadas por um período de quatro anos. O estudo detectou apenas 100 casos de agranulocitose e as maiores incidências de agranulocitose, universalmente reduzidas, não coincidiram com um maior consumo da dipirona . Desse estudo vieram conclusões como a de que a agranulocitose e a anemia aplástica poderiam ser causadas por muitos medicamentos, assim como agentes químicos e pesticidas, e que com todas as causas consideradas, a incidência global de agranulocitose seria de seis por milhão de habitantes, ou seja, extremamente baixa. Outra conclusão foi que o excesso de risco de agranulocitose atribuível a dipirona é, quando muito, 1,1 caso por milhão de pessoas expostas, que tenham tomado o fármaco durante o período de sete dias antes do início da doença.
Dois estudos no Brasil demonstraram riscos ainda menores de agranulocitose com dipirona. Sollero, em 2001, revendo dados de 531.161 pacientes hematológicos, detectou apenas 15 casos de agranulocitose, incidência de apenas 0,0003%. Hamerschlak, em estudo retrospectivo com 19.384 pacientes acompanhados ao longo de 8 anos, observou apenas 5 casos de agranulocitose, o que, extrapolando para a população geral, daria uma incidência de 0,44 a 0,82 casos por milhão de habitantes/ano.
Inúmeros outros artigos em vários centros médicos do mundo (Israel, Alemanha, Itália, Hungria, Espanha, etc.) detectam cerca de 1 caso por milhão de habitantes/ano nas últimas décadas.
(Continua...)