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Em 2009 fui diagnosticado com uma doença do neurônio motor (DNM) Trata-se de uma doença neuromuscular, progressiva, degenerativa e sem cura. Mesmo assim insisto que vale a pena viver e lutar para que pesquisas, tratamentos paliativos, novos tratamentos cheguem ao Brasil no tempo + breve possível, alem do respeito no cumprimento dos nossos direitos. .

21 de out de 2011

DEBATE - Pesquisadores discutem estágio atual das pesquisas com células-tronco. Quando a medicina disporá de terapia celular? (Parte 2)




Continuação...

Ayer: Quando poderemos ter pesquisas clínicas com células-tronco embrionárias ou com as IPS? 
 
Lygia: Ainda estamos longe disso. O trabalho com elas é recente e reúne poucos grupos de pesquisadores. Precisamos desenvolver nossos protocolos de multiplicação dessas células em grandes quantidades – que é um foco de pesquisa na UFRJ – para entrar na fase de diferenciação e especialização celular e, então, realizar os testes. Para se ter uma ideia, a empresa dos Estados Unidos que conseguiu a primeira aprovação para tratar lesão de medula com derivados de células embrionárias, injetou em dois mil animais, entre ratos e camundongos, antes de conseguir aprovação para fazê-la em seres humanos. Ainda nem começamos isso no Brasil. 
 
Zago: Temos um caminho longo e cheio de estrangulamentos técnicos. As culturas de células-tronco embrionárias, ou de IPS, não servem ao ser humano per se, porque não vão curar e podem gerar tumores. O primeiro passo para utilizá-las é fazer com que se diferenciem segundo a linhagem do tecido que queremos tratar. Para doença do coração, deve-se diferenciá-las em cardiomiócitos. No caso de uma IPS, que se originou de uma célula adulta e se transformou em embrionária símile, o pesquisador terá de percorrer o caminho inverso – ou seja, fazê-la se diferenciar novamente em outro tecido adulto. Uma vez diferenciada em tecido, por exemplo, cardíaco, ela precisa se multiplicar. Depois é preciso “limpar”, descartando as células que não se diferenciaram. Para tratar uma lesão cardíaca de infarto serão necessárias cerca de dois bilhões de células. Para cada um dos mais de 180 tecidos humanos existentes, será necessário desenvolver os protocolos que forneçam a célula apropriada. Eu não creio que isso aconteça em menos de cinco ou dez anos, antes de estarmos prontos para os testes clínicos em humanos. O primeiro teste em humanos com células embrionárias já está sendo feito para célula neurológica, mas não usa exatamente a diferenciação. Outro teste em humanos será iniciado na Inglaterra para tratar doenças de retina – neste caso, sim, usa uma IPS diferenciada. 
 
Ayer: Quais seriam os estímulos para aumentar o número de pessoas que trabalham com células-tronco? De que área viriam essas pessoas? Porque a Lygia é graduada em Física e, o Zago, em Medicina. 
 
Lygia: Quanto mais heterogêneo, mais rico será o grupo. É difícil uma pessoa ter formação que contemple todas as áreas que envolvem a terapia com células-tronco. Sou física, mas abandonei a área há tempos. Desde 1989, só estudo biologia molecular e celular, além de genética. A UFRJ reuniu biólogos e engenheiros químicos, que conseguiram adaptar essas células a biorreatores. É possível entrar nessa área por vários caminhos, da Engenharia, da Biologia, da Medicina. É importante ter equipes multidisciplinares para atacar o problema por vários ângulos.
 
Ayer: Quais são os grandes conflitos éticos que ocorrem nas pesquisas com células-tronco? 
 
Lygia: Em relação às células embrionárias, há a questão do embrião humano e seus direitos – que mobiliza o mundo inteiro e cada país resolve de acordo com sua legislação, cultura e história. No Brasil, passamos seis anos discutindo para, em 2008, o Supremo Tribunal Federal consolidar a Lei de Biossegurança, de 2005. A lei diz que o embrião não é uma forma de vida inviolável, se foi desenvolvido para fins reprodutivos, se está congelado há mais de três anos ou e se, para os pais biológicos, ele é inviável. Essa questão é ponto de debate, mas se resolveu dessa forma no Brasil. Outra questão ética, mais sutil, é o oportunismo de certos indivíduos com a expectativa que as pessoas têm em relação aos tratamentos. A mídia, às vezes, dá a entender que já há uma realidade terapêutica. Em alguns países há deslizes éticos até porque não existe uma regulamentação e legislação a respeito. O papel do cientista é muito importante na hora de comunicar. Temos de repetir de forma clara sobre as limitações porque as pessoas querem acreditar em um milagre. 
 
Zago: Os cientistas são entusiasmados com o que fazem e, muitas vezes, comunicam de maneira exuberante um resultado obtido, sem preocupação sobre como será lido pela sociedade, pois a imprensa dá destaque a fatos como sensacionais. Por isso, a Sociedade Internacional de Pesquisa em Células-tronco (International Society for Stem Cell Research) publicou um conjunto de regras éticas relacionadas às pesquisas. Uma diretriz importante diz que os resultados de pesquisas devem ser publicados por revista científica de amplo reconhecimento, antes de anunciados à imprensa leiga. Dessa forma, são lidos criticamente e aceitos pela comunidade científica, antes de divulgados à imprensa leiga, e não o inverso.

Ouvinte: A lei de biossegurança brasileira contempla as necessidades dos cientistas, quando comparada à legislação de outros países?
 
Zago: A lei se destinava a uma coisa e no último momento acabou servindo a outra. Era para a regulamentação de organismos geneticamente modificados, e a questão do embrião humano não tinha de estar ali, mas foi ali colocada.
 
Lygia: O texto inicial proibia o uso de embriões humanos com material biológico para pesquisa, o que deixou muitos cientistas apavorados. Então, comemoramos muito o texto final aprovado porque permitiu o início das pesquisas. Por má redação, a lei tem um detalhe que apenas permite o uso de embriões congelados até março de 2005. Na tentativa de fazer a lei valer retroativamente, para embriões congelados antes de sua entrada em vigor, seus redatores escreveram de forma clara que só podemos utilizar aqueles que foram congelados até essa data. Com isso, é finita a quantidade de embriões disponíveis às pesquisas. E, pior, os métodos de congelamento não eram os melhores até 2005. 
 
Zago: Entendo que algumas pessoas tenham conflito com a legislação atual. Muitos criticam a posição da igreja católica, mas é legitimamente fundamentada numa convicção moral. Entretanto, de alguma forma, a sociedade deve tentar obter o melhor benefício da ciência. Acredito, no entanto, que este debate centrado no uso de embriões deve perder relevância. Em todo o período de pesquisa com célula-tronco embrionária, tivemos apenas duas linhagens desenvolvidas no Brasil. Com o surgimento das IPS, a célula-tronco obtida da destruição do embrião perde sua posição central nessa área. O foco da ciência mundial voltou-se para as IPS, sobre as quais não pesam conflitos.
 
Ayer: O desenvolvimento desse tipo de célula foi decorrência dos possíveis conflitos éticos ou resultado de pesquisa pura? 
 
Zago: A pressão ética pode ter tido algum peso, mas, fundamentalmente, resulta de um questionamento científico importante. A célula, uma vez adulta e diferenciada, não se “desdiferencia” mais? Será possível desreprimir toda a informação de seu núcleo e, depois, voltar a reprimir? Foi isso que levou os pesquisadores japoneses a fazer esse experimento planejado, genial, elegante e bem-sucedido. Todos concordam que isso significou um desenvolvimento impressionante, e não seria surpresa que Shinya Yamanaka recebesse o Prêmio Nobel de Medicina. É claro que há dificuldades técnicas, mas elas estão se resolvendo.
 
Lygia: Em ciência, é muito difícil dizer que algo não vai acontecer. Sem dúvida, a possibilidade de reprogramar a célula foi uma quebra de paradigma importante. As IPS ainda devem resolver questões técnicas para serem aplicadas em seres humanos, enquanto que as embrionárias já o são. Pode ser que um dia não precisemos mais da embrionária e passemos a usar as reprogramadas. Porém, como se conhece a embrionária há mais tempo, as pessoas que trabalham com elas e já adiantaram suas pesquisas, devem continuar investindo nisso. Enquanto uma não superar as dificuldades técnicas, temos de continuar investindo na outra. Cada pesquisador trabalha naquilo que acredita. Temos de seguir em frente porque não sabemos qual célula-tronco vai curar o quê.
 
Lygia da Veiga Pereira, física, mestre em Ciências Biológicas e doutora em Ciências Biomédicas, professora associada e chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias da USP. Marco Antonio Zago, hematologista, pró-reitor de pesquisas e professor titular da USP, ex-presidente do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e coordenador do Centro de Terapia Celular de Ribeirão Preto (Cepid). Reinaldo Ayer, cirurgião cardiovascular, professor doutor de Bioética do Departamento de Medicina Legal, Ética Médica, Medicina Social e do Trabalho da Faculdade de Medicina da USP, conselheiro e coordenador da Câmara Técnica de Bioética do Cremesp.